22 de nov de 2016

O dia que a sociedade escolheu matar um desconhecido



Hoje a internet foi bombardeada com declarações de ódio advindas dos "cidadãos de bem", tudo a partir de um quadro em um programa da Rede Bobo.

No quadro, Fatima Bernardes coloca uma situação hipotética e os convidados precisam escolher entre duas possibilidades. Este quadro é, na verdade, uma versão "carioca" de um famoso dilema que une a filosofia moral e a teoria da complexidade, um dilema que é colocado a centenas de anos pra fazer as pessoas colocarem sua própria moral a prova. No quadro os participantes tinham que se colocar no lugar do médico e escolher entre atender o polícial LEVEMENTE ferido ou o traficante em estado GRAVE. Quando se diz "levemente ferido", quer dizer que não corre riscos, por tanto, ninguem escolheu salvar polícial nenhum, ao contrário, escolheram deixar alguem morrer deliberadamente. Escolher colocar o band-aid no policial é o mesmo que escolher matar uma pessoa que você não conhece e por tanto, não deveria pretender julgar, muito menos matar. Mas o que me deixa preocupada mesmo foi o linchamento virtual que esta sendo promovido por causa desse quadro, e que as pessoas não conseguem perceber o quanto a moralidade é relativa. 

Você atende antes uma freira levemente ferida ou uma profissional do sexo em estado grave? Um heterossexual levemente ferido ou um homossexual em estado grave? Um empresário ou um morador de rua? Um branco ou um negro? Um pai de família ou uma mãe solteira? Um religioso ou um ateu? Um humano ou um animal? 


JURAMENTO DO MÉDICO
“Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão. Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. Meus colegas serão meus irmãos. Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza.
Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra.”

Médicos do SAMU



NÃO PERMITIREI QUE CONCEPÇÕES RELIGIOSAS, NACIONAIS, RACIAIS, PARTIDÁRIAS OU SOCIAIS INTERVENHAM ENTRE MEU DEVER E MEUS PACIENTES. Acho que eles esqueceram dessa parte, ou cagaram pra ela mesmo.


Médico NÃO PODE escolher quem deve ser salvo baseado em julgamento moral, médicos são pagos pra salvar qualquer pessoa, sem distinção. A apresentadora em questão não foi contra a Polícia, aquilo foi um teste de humanidade, de ética. Ao distorcer as coisas para dar razão aos seus preconceitos, nossa sociedade, nossa polícia e nossos médicos falharam covardemente no teste. 

O caminho fascista fundamentalista que estamos trilhando nesse país esta começando a ficar perigoso pra todo mundo.







10 de mai de 2016

A regra é clara: Se um golpe anula um golpe, não é golpe!






Sobre o capitulo de hoje da novela impeachment... tem dois pontos, ha quem diga que Waldir Maranhão, presidente interino da Câmara dos Deputados, não poderia anular a votação da Cãmara pois o processo já estava no Senado, e ha quem diga que poderia, principalmente pois o STF afastou Cunha exatamente por se comportar como se comportou no caso do impedimento, então o processo deveria ser votado na Câmara novamente. 

Primeiro quero começar admitindo minhas limitações: Não tenho conhecimento jurídico e muito menos sobre as burocracias envolvidas nesse caso, por isso não pretendo dar respostas aqui, mas sim fazer perguntas. De minha posição não especializada, os dois argumentos me parecem validos, só que assistindo a sessão me chamou a atenção alguns comportamentos. 

Os senadores contra a anulação trataram como "golpe" a decisão por "cassar" o voto de mais de 300 deputados, como "atrasada" por sair depois que o processo já esta no Senado e a condenaram como "estritamente política". O que me incomoda mesmo é que TODO O PROCESSO esta sendo conduzido desta forma. 


Vou começar pelo "atrasada": A anulação da votação do impeachment veio em resposta a um recurso da AGU, Advocacia-Geral da União, feito no dia 25 de abril em decorrência de varias irregularidades da sessão na Câmara que votou pela continuidade do processo, este documento foi protocolado ao então presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afastado na semana passada do cargo e com o mandato suspenso por uma determinação histórica do Supremo Tribunal Federal. Desafeto de Dilma, Cunha sequer havia analisado o recurso até então, porem hoje mesmo, soltou uma nota dizendo que teria recusado a ação se ainda estivesse no cargo. Perguntas: Se Eduardo Cunha poderia recusar a ação agora, por que Waldir não poderia acatá-la agora? Se o recurso já estava protocolado ha duas semanas, e não havia sido sequer analisado por desavença política do ex presidente da casa, por que não pode ser analisado agora que este foi afastado? Se Eduardo Cunha foi afastado pelo Supremo Tribunal Federal exatamente por usar sua posição em suas jogadas sujas, sendo uma delas reconhecidamente a própria admissão do processo de impeachment, por que suas jogadas sujas não podem ser anuladas? 


Sobre a ação ser "estritamente política". Nós sabemos o por que o rito de impeachment existe, para afastar um presidente que tenha cometido crime, mesmo que tenha sido eleito democraticamente. Já precisamos usar dele uma vez com o ex presidente Fernando Collor. Uma diferença daquele processo pra este, é que daquela vez não haviam duvidas, os crimes de responsabilidade eram claros e independente de interpretações, não haviam centenas dos melhores juristas do Brasil dizendo que o impeachment de Collor era inconstitucional como ha agora, a única defesa de Collor era o grupo de advogados de defesa. O que temos agora é um processo tão fraco, que esta sendo conduzido no grito, ao invés de uma base jurídica consistente temos dois grupos políticos batendo boca pelo poder, ganha quem gritar mais alto e o grupo que conseguir sugar mais aliados, ou seja, um processo estritamente político! Assim como a decisão de Cunha em acatar o processo de impeachment foi estritamente política, assim como a votação da câmara (quem assistiu sabe que os deputados não tinham nem conhecimento sobre o que Dilma estava sendo acusada) foi estritamente política, assim como um impeachment que depende de aprovação na Câmara e no Senado, sendo que ambas as casas são dominadas pelo partido (PMDB) que mais se beneficiará ao ganhar a presidência após o impedimento da presidenta, não pode ser considerada outra coisa se não estritamente política! Eu nem sei mais o que dizer sobre isso, é tudo tão errado, que o mínimo que se deveria fazer era retornar esse processo pra origem, e garantir que saísse de lá sem erros básicos, que passasse por votação novamente na Câmara, desta vez com os deputados mais cientes do que esta acontecendo e votando de acordo com suas próprias consciências!


Sobre o suposto "golpe" em anular o voto dos mais de 300 deputados da Câmara.  Partindo do já pressuposto (inclusive admitido pela própria oposição) processo de impeachment puramente político que está em curso, não é no mínimo hipócrita chamar de golpe uma decisão que anula o voto de mais de 300 deputados, sendo que um processo estritamente político esta anulando o voto de 54 milhões de brasileiros?
Isso tudo é tão absurdo, que Renan Calheiros, presidente do senado, não teve nenhum constrangimento em IGNORAR um ato jurídico do presidente em exercício da câmara, uma outra autoridade da República de soberania equivalente. Por mais que esta decisão possa ser entendida como "atrasada", no mínimo Renan Calheiros deveria recorrer ao Supremo Tribunal, ao menos para questionar a validade ou legalidade daquele ato. Se o presidente do senado pode ignorar uma decisão do presidente da câmara, por que a presidenta do país não poderia ignorar decisões dos outros poderes também? E se o Planalto resolvesse ignorar a aprovação do rito do impeachment pela câmara? Vamos botar fogo na constituição de uma vez que pelo menos seria menos hipócrita. Mas calma, só quem é a favor do impeachment esta autorizado a rasgar a constituição! 

 
Hoje eu pude assistir a sessão do senado federal por inteiro, e por mais perguntas sem resposta eu tenha feito, uma coisa me ficou bem clara: Não interessa o que diz a constituição, a lei do impeachment, a imprensa internacional, os governos dos países do MERCOSUL, do Brics, decisões da Câmara, do STF, do raio que o parta, não importa nada do que foi dito pelos senadores contrários ao impeachment, não interessa nenhum dos milhares de argumentos por melhores que sejam. Existe uma decisão estritamente política de assaltar o poder executivo por parte daqueles que já tomaram todos os outros, eles estão dispostos a ignorar e atropelar tudo que for necessário e vão fazer isso de qualquer maneira. 


Algo muito significativo de tudo isso que eu disse foi proferido durante a sessão, numa fala o presidente Renan Calheiros admite de maneira tímida, que se após a consumação deste impeachment a lei que regulamenta o rito não for revista, o Brasil vai se tornar um país ingovernável. Em outras palavras, se pretende consumar uma medida tão drástica como o impedimento baseado em interpretações da Lei que deverão ser revistas para não mais se repetirem! 

 

E o GOLPE esta escancarado na nossa cara!  

 

 

28 de abr de 2016

Bela, recatada e “do lar”, também merece respeito.



Na ultima semana a internet pegou fogo, isso porque a revista Veja publicou uma matéria sobre a esposa do vice-presidente Michel Temer. Como resposta, mulheres do Brasil inteiro começaram a usar o título da matéria pra tirar sarro, postando fotos próprias onde aparecem claramente quebrando este padrão com a tag #BelaRecatadaEdoLar. 


Luciana Genro (PSOL) sendo contida por quatro policiais.



Em conseqüência, alguns veículos da mídia conservadora saíram em defesa da revista e "da mulher direita", acusando de "feminismo" a manifestação espontânea que ocorreu contra a reportagem. Infelizmente algumas mulheres de pensamento mais inclinado à direita preferiram comprar esta versão. É para estas que quero falar.


Antes de mais nada quero pedir para que leia a reportagem --> Clique aqui <----

Em algum momento nesta reportagem você teve acesso a alguma fala de Marcela Temer? Não teve, por que não existe nenhuma linha de protagonismo da personagem, nem lugar de fala ela tem. Veja bem, uma matéria inteira e não sabemos nada sobre ela. O país entrando em colapso e não perguntaram nem como ela vê a situação, a corrupção, como se sente quase se tornando primeira-dama, quais suas perspectivas, projetos, sonhos e anseios. Preferiram reduzi-la a uma Barbie acéfala. 
A revista optou por destacar: "43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos", "(Temer) foi seu primeiro namorado", " nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele", "(a mãe) acompanhou a filha adolescente em seu primeiro encontro com Temer". (romântico, não?)

Você consegue perceber que o problema não é Marcela Temer? Nem a dona de casa, nem a mulher recatada, nem mesmo o fato dela ter sido oferecida ainda adolescente a um homem de 62 anos entrou em discussão! A questão real da revolta é que a Veja colocou o padrão e o lugar "correto" para a mulher na imagem superficial que pintou para Marcela Temer. Talvez Marcela seja uma curiosa da ufologia, estudiosa da culinária, goste de historia em quadrinho, esteja escrevendo um livro sobre a vida fantástica de sua bisavó. Mas isso não importa, por que a matéria não é sobre ela. 

Agravando-se ainda o fato de estarmos sofrendo o impeachment da presidenta Dilma, e a revista em questão sempre ter sido uma opositora agressiva a seu mandato. Quando a revista exalta que o lugar desejável para a mulher é sendo "bela, recatada e do lar", faz uma clara oposição à mulher que consideram não se colocar em seu devido lugar, sendo "fora do padrão estético, durona e presidenta da República". Acrescentando a obvia conclusão para quem leu a matéria, de que o “bom comportamento” de Marcela Temer é colocado para promover seu marido, como se fosse uma qualidade dele. 






Esta matéria cabulosa da revista Veja não foi sobre Marcela, foi sobre o lugar destinado à mulher, à todas as mulheres: eu, você, Marcela e Dilma. A qualidade destacada não foi a beleza, o recato ou a escolha em cuidar da casa, foi a qualidade de MULHER DECORATIVA. Não é a toa que não tem nenhuma fala da moça na matéria, a ausência de fala e de opinião é a qualidade mais valorizada desta "mulher ideal", completando com: "alienada, sem opinião própria e puramente decorativa".

Foi isso o que a Veja disse por tabela, e isso é ofensivo à todas as mulheres: Trabalhadoras, do lar, dentro ou fora dos padrões estéticos, cristãs, umbandistas, feministas, heterossexuais, homossexuais, etc.  Tem muitas coisas implícitas nessa matéria, escolher ser "do lar" é a única coisa que não é uma indignação.


Em contrapartida a isso, outra "primeira-dama" foi destaque da mídia esta semana. Milena Santos é a esposa do novo ministro do Turismo, Alessandro Teixeira do PT, e causou polemica ao divulgar fotos nua em frente ao Planalto:




Além da bunda colossal desta primeira-dama e da maneira nada recatada em que virou noticia, e apesar das criticas dos mesmos moralistas de sempre, as matérias sobre ela dedicaram varias linhas à seus pensamentos e opiniões. E pudemos conhecer a personalidade desta mulher, que é ainda maior que sua bunda.

Agora me diga com sinceridade, quem é que esta desqualificando a mulher "bela, recatada e do lar"? 

Sim, a Revista Veja e o conservadorismo... por que ao contrario do que querem te fazer acreditar, o feminismo existe para dar voz a essa mulher... e a todas as outras, e para fazer respeitar a "natureza da mulher", entendendo que cada mulher tem sua própria natureza, e que todas devem ser respeitadas e valorizadas. Enquanto todo este esforço conservador e retrogrado sempre existiu para calar a nossa natureza própria, única, múltipla, e definir "natureza da mulher" segundo padrões de comportamento patriarcais, mantendo a mulher no lugar que eles destinaram a nós, e neste lugar somos apenas belas, recatadas e decorativas. Enquanto eles viram presidentes do país.




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Pra você não precisar ir atrás das matérias sobre Milena Santos, primeira-dama do turismo e miss bum-bum, compartilho aqui alguns pensamentos dela:

"Não sei se duraremos mais uma década, estão saqueando os cofres públicos do nosso país e não temos candidatos. Não há opções”

“A mudança, para que possamos eleger bem nossos representantes, começa em tentar melhorar a cultura do país."

"Quero que a Dilma permaneça presidenta, na minha opinião ela é uma mulher íntegra e com a postura correta para ser a presidenta do país."

"O Cunha é uma pessoa extremamente inteligente e manipuladora, sabe que o povo brasileiro tem memória curta. Ele é bem capaz de contornar tudo isso e ainda tentar ser presidente."

 "Eu gostaria de saber por que ele não foi tão ágil nas investigações do processo da esposa do Eduardo Cunha, como foi contra o ex-presidente Lula" (Sobre Sergio Moro)

 "O lobo mau vestido de cordeirinho..." (Sobre Michel Temer) 

"Único presidente que se preocupou com o povo, principalmente com o Nordeste, de onde vim." (Sobre o ex-presidente Lula) 

“Mesmo que tenha postura para assumir nosso país, ele não respeita as mulheres. E mais de 52% da população brasileira são mulheres. Como ele ainda quer governar este país?” (Sobre Aécio Neves) 

"Sem palavras para descrever tanta ignorância!" (Sobre Jair Bolsonaro) 

"Isso tudo está acontecendo porque quem não mama, chora. O povo entende bem o que quero dizer."